Entrevista

Bem humorado e simpático, o jornalista hoje da Rede Record, Humberto Perina, 53 anos, nos aguardava em frente à emissora para a entrevista. Logo nos cumprimentando, levou-nos para a pequena sala de imprensa no sétimo andar do prédio. Foi aí que, num tom de “bate papo entre amigos”, Perina nos concedeu uma entrevista de 45 minutos. Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Concedendo-nos a entrevista  – Foto: Juliana Duarte

Quando você decidiu que Jornalismo era o que queria?

Eu caí meio que de paraquedista. Durante minha infância nunca pensei em ser jornalista. Minha profissão de coração sempre foi piloto de avião. Gosto muito da aviação.

Mas aí você vai sendo levado de um lado pro outro, colegas, na época não existia TV. E eu fazia sons em baile e os colegas falaram que umas rádios aqui de Santos precisavam de discotecário. E então eu entrei na rádio Atlântica e na Rádio Tribuna AM. Aí você começa a entrar nesse mundo, eu, comecei a gostar e então resolvi fazer a faculdade de jornalismo.

Você é formado?

Me formei em 1990 pela Unisantos (Universidade Católica de Santos).

Sua família apoiou a sua escolha?

Sempre apoiou. Nunca foi contra.

Como começou seu contato real com a profissão?

Como disse, comecei como discotecário na rádio Atlântica. Daí, no final do ano, os programas de Esporte tem uma “folga”, devido aos campeonatos, e eles tocam músicas. Eu comecei a programar essas musica e o pessoal começou a pedir pra eu ler notinhas de esporte. Então eu comecei, na verdade, como repórter esportivo de rádio. Assim, devagarinho…

Sempre quis trabalhar na TV ou não era sua prioridade?

Sempre foi a paixão! Sempre gostei de mídia eletrônica. Quando começaram a falar que vinham as TVs pra Santos eu e muita gente na faculdade começou a se interessar pela TV.

Quais foram os maiores obstáculos profissionais que você enfrentou?

Eu não tinha uma boa estampa e nunca tive uma boa voz. Teve o dono de uma rádio, que falou que eu nunca seria locutor porque a minha voz era feia e eu nunca falaria. Pra quem estava querendo virar repórter foi um banho de água fria.

Então eu tive que contrabalançar tudo isso com competência. Para eu conseguir ser melhor que um cara que é bonitão e tem um vozerão, eu tenho que ter muita competência. Por que TV é imagem, mas apenas imagem não adianta. E foi aí que eu consegui. A rádio me ajudou muito na agilidade que é preciso ter na TV. E através dessa correria, agilidade, do dia a dia eu fui conquistando meu espaço.

Em algum momento pensou em desistir? Por quê?

Não pensei em desistir, mas de vez em quando a profissão me preocupa muito. O nosso mercado está muito ruim. Hoje em dia a concorrência está muito grande: Internet, telefone, câmera, cinegrafista amador… A desgraça do jornalista é cinegrafista amador. Qualquer lugar tem alguém gravando e depois vende pra TV por um preço relativamente baixo. Daí a TV coloca aquela imagem e isso vai pegando o campo da gente.

Algumas emissoras também começaram com o “repórter abelha” (repórter que segura câmera e faz entrevista ao mesmo tempo). Isso é o cúmulo! Abomino quem faz isso, porque está acabando com o mercado. Tem que ter o câmera, o motorista, o repórter…

Essa semana mesmo alguns jornais fecharam. Jornal Marca, Jornal da tarde, um jornal bom pra caramba. E isso desanima demais a gente. Eu nunca pensei em desistir, mas que a gente desanima, a gente desanima. Mas isso em qualquer profissão também, né!

Quais foram os seus piores momentos na carreira?

Quando eu saí da A Tribuna foi um momento em que eu fiquei muito chateado, pela forma como foi feita. Eu era um dos jornalistas com um salário relativamente bom e eles mandaram embora vários repórteres que ganhavam um pouco mais para contratar gente nova que ganhava um terço. Como medida de contenção eles fizeram isso e eu “dancei” na época. Sem motivo, sem nada. A gente fica chateado por que eu tinha 7 anos na A Tribuna. Claro, fecha uma porta, abre outra. Não levo mágoa, mas foi uma coisa que eu fiquei muito chateado pela forma como foi feita.

E os melhores momentos?

Acho que o melhor momento é sempre aquele que você está passando agora. A gente sempre está aprendendo como jornalista. Então não tem aquele que eu diga “nossa, foi meu melhor momento”.

Qual matéria mais te emocionou e orgulhou?

Algumas reportagens marcam mais, outras te assustam. Semana passada eu estava no meio de um tiroteio na favela fazendo uma reportagem. Quer dizer, é óbvio que isso vai assustar.

Também fiz uma pela REDETV em São Paulo também no meio de um tiroteio e o policial morreu na minha frente. Eu e o câmera largamos tudo para acudir o policial. Não sei se é o certo ou o errado, mas eu não vou deixar o cara morrendo lá só para fazer minha matéria. Antes de tudo, a gente é humano.

O jornalismo já afetou a sua vida pessoal?

Eu sempre gostei de trabalhar aqui em Santos. Sempre que fui pra São Paulo é porque as oportunidades surgiam, e realmente as melhores estão lá. Mas eu fazia de tudo para voltar. E nunca morei lá, sempre subia e descia. Não estou correndo atrás de prêmio ESSO, eu quero é qualidade de vida!

Para muitos isso é errado, mas eu coloco a minha vida pessoal, a minha qualidade de vida em primeiro lugar e o trabalho em segundo. É por isso, talvez, que eu não tenha crescido mais na área, pois aquele que virou o TOP é por que colocou a profissão em primeiro lugar. Mas daí a vida pessoal dele é um saco. Ele é mal casado, é tudo assim. Por que jornalista não tem horário, é uma vida de louco.

Qual recado você daria a quem está começando agora na profissão?

Persistência, não desistam. Não desanimem diante do que vão falar pra vocês. Vai ter muita gente que vai desanimar, muita gente que vai querer o lugar de vocês e por isso vai desanimar, muita gente que por medo natural também vai acabar desanimando. Vai ter muita gente que não é nem por maldade, às vezes vai estar achando que está ajudando vocês mas acabam desanimando também. Mas aí vocês têm que correr atrás, não pode desanimar no primeiro não. Até hoje, quantos nãos eu não levo? Nas mínimas coisas, vocês não podem desanimar.

Não é fácil. Vocês vão encontrar muita dificuldade pela frente, mas a profissão é encantadora, é legal. Ninguém vai ficar rico como Jornalismo, poucos ficam. Mas é uma profissão que hoje rala muito para ganhar pouco. Quem está nela, está porque realmente gosta, pelo encanto da profissão, pelo fascínio que ela traz, mas se vocês gostam, não desistam!

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